O dia 29 de janeiro é o Dia Nacional da Visibilidade Trans no Brasil. Em 2004, lideranças do movimento de pessoas trans foram pela primeira vez ao Congresso Nacional expôr as graves questões sobre a realidade deste grupo. Desde então, a data representa a luta pela dignidade para pessoas trans.

Mas afinal, por que a Medral está preocupada com este tema? Porque esta data não fica restrita a uma única causa, ela trata sobre o respeito ao outro e também sobre diversidade, e diversidade é parte da Medral.   A inclusão de pessoas diversas no mercado de trabalho faz parte de nossa cultura e de nossos objetivos de futuro. Tendo isso em vista, também queremos dar visibilidade a temas que discutem os direitos de grupos minoritários e minorizados e, a pessoa trans é um deles.

A pessoa transexual é aquela que não se identifica com o gênero que a sociedade acha que ela deve ter por conta do seu sexo biológico. Afinal, uma mulher ou um homem não podem ser resumidos ou definidos por seus respectivos órgãos sexuais, não é mesmo?

Por isso, entender é o primeiro passo para ajudar a dar mais compreensão e visibilidade às pessoas que são historicamente marginalizadas por muitos. Leia a seguir a entrevista realizada pela área de Diversidade e Inclusão com Joseph Kuga Marques*, 28 anos, transexual que luta por mais dignidade e pela inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho.

 

Medral: Ainda notamos uma falta de conhecimento e entendimento por parte da sociedade em geral sobre as questões LGBTQI+, em particular, sobre transexualidade. Como você explica o que é ser trans?

Joseph: Costumo começar essa conversa explicando as “quatro caixinhas”: sexo biológico, identidade de gênero, orientação sexual e expressão de gênero. O sexo biológico é aquele dito a você na hora do nascimento e é derivado de cromossomos, hormônios e genitália, que pode ser: vagina ou pênis. Expressão de gênero é a forma como você se expressa. É o feminino e o masculino. Já a identidade de gênero é como você se reconhece: mulher, homem ou não binário (ou seja, aquele que não se vê como apenas uma coisa ou outra). Isso vem da sua psiquê. Há estudos que dizem que a genitália é formada três semanas antes da nossa psiquê, então pode ocorrer sim uma divergência que chamamos patologicamente de disforia de gênero, ou seja, você está num corpo, mas não se enxerga como aquele corpo, seja homem ou mulher. E, quando falamos de orientação afetiva sexual, é a inclinação involuntária por quem você sente atração, por homem, mulher ou ambos. Entendido essas diferenças, passamos a compreender que pessoa trans é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer, e que ao longo da vida busca adequar seu corpo e outros aspectos da vida ao gênero com o qual se identifica.

 

M: Você nota algum avanço em relação ao respeito, à igualdade de direitos da pessoa trans?

J: Nós já temos uma iniciativa parlamentar tramitando, como o Projeto de Lei que cria o Programa Estadual TransCidadania, da Érica Malunguinho, deputada estadual por São Paulo pelo PSOL (Érica foi a primeira mulher transexual da Assembleia Legislativa de São Paulo). Esse PL quer garantir emprego e educação aos travestis, transexuais e transgêneros, e é uma maneira de reparar a violência cometida contra essa parcela da população. Outra conquista foi a retificação de nome direto no cartório de nascimento. Mas a realidade para a pessoa trans ainda é muito dura. De acordo com a Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% das pessoas transexuais estão na marginalidade, só 10% está no mercado de trabalho. Ainda temos muitas pessoas que mesmo qualificadas não conseguem se colocar no mercado porque não tem a passabilidade* por ser uma mulher ou um homem trans, ou seja, a aparência ainda é duramente levada em consideração. (*Passabilidade é um termo usado na comunidade transgênero que implica em determinado indivíduo trans “passar” como seu gênero de identificação).

 

M: Quais são os principais desafios hoje?

J: Mudar esse cenário da inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho. Ainda hoje se fala muito que não existem pessoas preparadas no mercado. Isso é questionável, temos sim pessoas preparadas, o que acontece é que as empresas não estão olhando para essas pessoas. E, se realmente não tem gente preparada, qual é a nossa responsabilidade enquanto empresa ou pessoas privilegiadas? É buscar soluções para a raíz do problema, como por exemplo, na questão da educação formal. Hoje ainda nos deparamos com um alto indice de evasão escolar, 82% das pessoas trans não terminam os estudos (segundo um estudo realizado pela Ordem dos Advogados). E por que isso acontece? Porque a escola ainda é um lugar onde a violência persiste, como estupro corretivo, espancamento e outras formas de abuso. A educação formal dá dignidade a qualquer pessoa e não é diferente com a pessoa trans.

 

M: Como as empresas podem contribuir para avançarmos na questão da inclusão e da igualdade de direitos das pessoas trans?

J: A empresa tem um papel muito importante na luta pela igualdade, sobretudo quando é legítimo. E percebo a legitimidade quando vejo a inclusão na integridade. Não dá para trabalhar a diversidade sem garantir a inclusão. E a inclusão se dá quando dentro do ambiente de trabalho qualquer pessoa é respeitada pelo que ela é, quando há plano de carreira para as pessoas diversas também. É preciso trabalhar a equidade de forma legítima dentro de qualquer empresa, só assim seremos capazes de fato conseguir mudar o mundo.

*Joseph Kuga Marques é Líder de Diversidade & Inclusão em uma grande empresa do setor de celulose. Atua como generalista no tema, com abrangência em Gênero, Pessoas com Deficiência, Gerações, Étnico Racial e LGBTI+. Especialista e palestrante no tema: Gênero, Sexualidade e Transexuais no Mercado de Trabalho.

 

Joseph Marques, especialista em Gênero, Sexualidade e Transexuais no Mercado de Trabalho.

Joseph Marques, especialista em Gênero, Sexualidade e Transexuais no Mercado de Trabalho.